domingo, 3 de março de 2013

Conto: A carta sem remetente

Primeiro sábado das minhas supostas férias, minhas expectativas sobre o dias que eu  vivo são sempre baixas, quero dizer, raramente acontece algo fora do comum.
O cheiro de quiabo invadia a casa, para o meu desgosto, esse sábado era a vez de agradar minha irmã na comida. E o som de algum cantor aleatório que meu pai encontrou na internet tocando no volume máximo, bem tipico dele. Eu, por incrível que pareça, mesmo com a minha personalidade forte, mais conhecida como mau humorada da família, me acordei feliz, afinal era apenas mais um dia sem obrigações nenhuma para se viver.
Em minha família, todo mundo é meio esquecido, não os culpo-os, até por que entro nesse grupo eventualmente, a uns dias atrás mesmo tive a capacidade de esquecer o aniversário da minha mãe, sendo que atendi uns vinte telefonemas para ela em uma manha. Sempre uso a desculpa que não é o fato de eu esquecer das coisas e sim, de lembrar das mais importantes. Não, não tentei usar essa desculpa no dia do aniversário da minha mãe, tive vergonha na cara.
Quase todo os dias, em algum momento, eu paro o que eu tô fazendo ou corto minha linha de raciocínio para dizer a mim mesma como eu não tenho nada a ver com a minha família. Meu pai vive fazendo piadinhas desnecessárias que, eventualmente, sempre irritam minha mãe, que é uma pessoa com o pavio curto demais. Enquanto minha irmã é super pacifica porém mente fechada para qualquer ideia que se diferencie a dela. A questão é que, até na minha própria casa eu me sinto um peixe fora d'agua.
Toda vez que vejo minhas amigas falando sobre amor, eu me sinto pobre. Exatamente, pobre. Não consigo tirar da cabeça como qualquer pessoa no mundo já teve mais relacionamentos amorosos do que eu. Minha amiga que eu vi bebê, já teve mais casos que eu. Resumindo, pense na pessoa mais feia do mundo com mais  problemas psicológicos que você conhece, pensou? Então, ela já teve mais relacionamentos que eu.
Quero dizer, essas informações aleatórias que eu acabei de citar passavam sem parar pela minha cabeça, se esbarrando como um cruzamento com sinais abertos em todos os lados. Eu acabara de acordar, fui tomar um banho frio, como fazia normalmente nesses dias de calor, e ao sair fui surpreendida com alguém me chamando no portão. 
Corri até lá, com os cabelos pingando, e me deparei com um carteiro meio estranho. A primeira coisa que eu me questionei no momento que vi ele com cartas foi o quão velho ele era para esse serviço, e o por que, o carteiro estaria trabalhando em pleno sábado. 
O uniforme tinha algo estranho também, parecia algo do futuro, difícil de explicar. Enquanto ele olhava para mim no meu caminho até o portão, me transmitia uma sensação de finalmente, como se ele estivesse me procurando por horas. Me olhou firme e sem exitar disse que tinha um entrega muito especial para mim.
Estava tudo muito estranho, afinal, como ele saberia que era especial, quero dizer, ele era só o carteiro. Mas, como ando meio maluca nos últimos dias, só peguei  a carta que ele parecia tão satisfeito em me entregar e entrei em casa.
Outro pequeno defeito que eu talvez tenha esquecido de citar dos meus pais, é a curiosidade deles, no momento que entrei ambos vieram na minha volta querendo saber o que era aquela carta. O que nem eu sabia ainda. 
Tentei privacidade e me fechei no quarto, minha irmã estava na cozinha estudando com fones no ouvido e nem tinha captado o que estava acontecendo. 
O envelope estava bem lacrado, sem remetente e muito novo, como se tivesse sido escrito a minutos atrás. Antes de começar a ler, dei uma analisada, o texto era breve e estava na cara que eu ia ficar com gostinho de quero mais.
E foi com caneta vermelha e uma caligrafia feia que ali estava escrito:  "O frio continua igual, os nossos lugares já não tem mais a mesma alegria que seu sorriso transbordava, nem a doçura do nosso romance. Sinto falta dessa sensação que você me trazia, de que eu poderia conquistar o mundo.  Acho que ambos seguimos em frente, mas agora tá na hora de voltar. Meu bem, a carta é nova, mas meu amor é velho."


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